Editorial
OGRLÊKH
Aqui
estamos, uma vez mais, procurando o contacto convosco e
proporcionando a troca de informação entre a Direcção e os
sócios e, não menos importante, um espaço onde os sócios
possam falar de si e do que lhes interessa, seja uma opinião
crítica, um conselho amigo, ou uma iniciativa que gostariam
de ajudar a desenvolver.
Desta vez, é-nos particularmente grato dar ao jovem
organizador do Dia de Goa, Damão e Diu 2003,
Constantino Hermanns Xavier, a hipótese de, numa Página
Jovem alargada, informar e fazer o balanço da
celebração, não só deste ano, mas também dos anos passados.
Ninguém o pode fazer melhor do que ele. Participamos nas
iniciativas e tivemos o gosto de acolher, na Casa de Goa, os
diversos eventos programados para o dia 20 de Setembro e
referidos na Página Jovem.
Os nossos habituais colaboradores asseguram o seu contributo
– o Francisco Sá, com a última parte sobre a
circulação da moeda na ex-Índia Portuguesa e a
Susana Sardo, sobre o papel do “mestre das noivas”
não só na música goesa, mas também no comportamento das
jovens casadoiras.
Na página dedicada à Poesia da Nossa Terra, Jorge de
Abreu Noronha, traduz um poema de Adeodato Barreto,
dedicado aos operários e pequenos poemas para crianças,
de Bakibab Borkar. É, ainda, Jorge de Abreu Noronha
que, de Goa, nos manda notícias do programa do concerto
realizado, na Kala Academy, em homenagem ao
Maestro António de Figueiredo. Também nós nos iremos
associar à celebração do centenário do nascimento do Maestro
com uma homenagem já marcada para o dia 8 de Novembro, na
Casa de Goa, para a qual já foram todos convidados no último
Boletim.
Várias notícias dão corpo à rubrica Entre Nós.
Sublinhamos a intenção de cumprir as deliberações
estatutárias resultantes da Assembleia Geral Extraordinária
de 25 de Janeiro, relativamente ao Hino da Casa de Goa e à
actualização do ficheiro de sócios. Registamos, com apreço,
o facto de, até agora, 42 sócios terem já regularizado as
suas quotas. Esperamos que este número aumente, sobretudo
para confirmar de que os sócios continuam interessados em
participar nos caminhos futuros da Casa de Goa.
Finalmente, para
Novembro e Dezembro, propomos uma Conversa ao Balcão,
a Festa de Natal para as crianças (e não só!),
o já tradicional Almoço de Confraternização de
ex-alunos, professores, amigos e simpatizantes do
Liceu Afonso de Albuquerque, de Goa.
Aproximando-se a quadra festiva, aproveitamos este espaço
para desejar a todos vós e às vossas famílias um Feliz Natal
e um Ano Novo de 2004 pleno de realizações pessoais e
profissionais.
A Direcção
TRAÇOS DO FOLCLORE GOÊS
GÕYCHEA LÔKVEDACHÊR NODOR
Inauguro hoje um conjunto de textos sobre os itinerários da
música, que em Goa desenharam um conjunto de géneros e de
práticas musicais que nos permitem hoje falar de “música
goesa”. Permito-me dedicar este primeiro texto à figura do
mestre de música cuja importância é tantas vezes subestimada
em Goa mas que constituiu de facto uma figura central na
educação e na divulgação da música ocidental, numa época em
que a difusão musical dependia única e exclusivamente do
acto de fazer música ao vivo.
“O mestre das noivas”
O
modo como a música ocidental foi introduzida em Goa remeteu
para a clandestinidade praticamente todo o tipo de música
associada ao hinduísmo. A prática da música não ocidental
era severamente punida de acordo com a legislação e com as
determinações dos Concílios Provinciais. Quando, na segunda
metade do século XVIII, os portugueses mostraram alguma
contemporização para com o hinduísmo, sobretudo depois da
anexação das Novas Conquistas, da expulsão das Ordens
religiosas e da implantação do regime liberal, a música
ocidental estava já suficientemente alicerçada em Goa e
fazia parte do quotidiano religioso e profano dos católicos.
O Motete e o Hino, terão sido os géneros religiosos com
maior implantação, continuando a compor-se e a
desempenhar-se durante todo o século XX, escritos também por
compositores goeses. Definiam um tipo de música que era
acessível a toda a população católica masculina porque era
ensinada e veiculada através das escolas de doutrina, mais
tarde escolas paroquiais. Mesmo com o aparecimento das
escolas primárias na primeira metade do século XIX, a música
continuou a ser ensinada nas escolas paroquiais ou em casa
através do mestre de música, o único professor
responsável pela formação musical das mulheres, prática que
estava proibida desde 1606.
O mestre era uma figura extremamente considerada e
muitos tinham uma actividade de composição musical muito
intensa sendo conhecidos por apresentar regularmente
repertório novo nas missas mais importantes. No contexto
rural de Goa o mestre seria uma figura de destaque
porque era talvez o único que desempenhava uma profissão de
prestígio para além do padre e do médico. A sua actividade
era regulamentada pelos seminários, em especial pelo
Seminário de Rachol.
Apesar da literatura sobre Goa ter de alguma forma
negligenciado o estudo desta personagem parece evidente que
o mestre terá sido o principal responsável pela introdução
da música profana no contexto doméstico e seria o único que
poderia ter cumprido com os grandes objectivos da elite
goesa de acordo com os quais as meninas educadas deveriam
saber falar francês, e tocar piano, guitarra ou bandolim. A
ele se deve também a preparação musical das meninas para o
casamento e a composição de grande parte dos mandós de
casamento.
“Antigamente todos os pais que tivessem uma certa receita
punham o mestre em casa. Ele tomava a canj, uma sopa, e
ensinava. Se tivesse um piano ele ajudava a tocar piano e
depois o violino. Depois quando ela chegava à idade de casar
ele preparava um mandó onde dizia as qualidades superiores.
Mesmo que ela não tivesse qualidades superiores o mandó
havia de dizer que ela tinha todas essas qualidades.”
(Aleixo Manuel da Costa (1908-2000), entrevista concedida em
1992)
Por isso, alguns mestres, pela função que desempenhavam na
educação das meninas e na sua preparação para o casamento,
eram conhecidos como “mestres das noivas”.
Sob o ponto de vista musical, o mestre, a quem competia
ainda formar as crianças na leitura e na escrita (em
português), na catequese (em latim), e na matemática, era
simultaneamente compositor, maestro e professor de música
teórica e prática. Este saber multi e transdisciplinar, tão
propício à pouca profundidade dos saberes, fez com que a sua
figura aparecesse muitas vezes caricaturada como por exemplo
no seguinte dulpod:
|
Aitará
santa misak(o) |
|
Na Santa
Missa de Domingo |
|
Mestri vajita rebek(o) |
|
O mestre
toca violino |
|
Mestri
rebeko vajit(a) rê |
|
O mestre
toca violino |
|
Kumpas(u) man’u falso |
|
Mas não
acerta o compasso |
|
|
|
|
|
Mestri rebek(u) zanna, |
|
O mestre
sabe tocar violino |
|
Kumpas(u) nena |
|
Mas não
sabe acertar o compasso |
|
Amen, amen, amen |
|
Amen,
amen, amen |
Na verdade, e apesar da sua importância, a maioria dos
mestres acabou por não deixar testemunhos escritos do seu
desempenho e das suas obras. O seu papel é frequentemente
referido nos testemunhos orais dos goeses,
mas a sua obra não está registada nem publicada
exceptuando-se os trabalhos de Lusitano Rodrigues, natural
de Raia e que faleceu em 1943, do Pd. Ludovico da Caridade
Ferrão (1852-1922), do mestre Aleixo Francisco, que faleceu
em 1916 e que exerceu a profissão de professor de música em
Bombaim, do Pd. Francisco Domingos Luís (1885-1949) que foi
professor de várias cadeiras de música no Seminário de
Rachol e do Pd. Casimiro Cristóvão Nazaré (1830-1928).
Susana
Sardo
MEMÓRIAS DA NOSSA TERRA
AMCHEA GANVCHEÔ IADI
CIRCULAÇÃO DA MOEDA
NA EX-ÍNDIA PORTUGUESA
(Continuação)
Entretanto
em 1868 o Banco Nacional Ultramarino instalou uma Agência
em Nova Goa, que se elevou a Filial, e posteriormente abriu
Dependências em Margão, Vasco da Gama, Mapuçá e Damão. De acordo
com o contrato de 30-11-1901, com o Estado Português, este banco
estendeu à Índia o seu privilégio de Banco Emissor para as
colónias e de harmonia com o Aviso de 30-11-1906 lançou em
circulação em 1906 as suas primeiras notas, fabricadas em
Londres, do valor de 5, 10, 20, e 50 Rupias. Continuou
emitindo:
Em 1907 - 5, 10 e
20 Rupias
Em 1908 - 5, 10,
20 e 50 Rupias
Em 1909, 1911 e 1916
- 5 e 10 Rupias
Em 1910 e 1912 -
5, 10 e 50 Rupias
De 1918 a 1921 - 5
e 50 Rupias
Face ao Dec de
11-9-1917 emitiu Cédulas de:
Em 1918: 4 Tangas,
8 Tangas e 1 Rupia;
Em 1919: 4 Tangas,
8 Tangas, 1 e 21/2 Rupias;
Ao abrigo do contrato
de 4 de Agosto de 1919 emitiu as seguintes notas:
Em 1919: 1 e 2½
Rupias
Em 1924: 1, 2½, 5,
10, 20, 50, 100 e 500 Rupias.
E com o novo contrato
de 4 de Agosto de 1929:
Em 1929: 1, 5 e 10
Rupias
Em 1938: 5, 10, 20
e 50 Rupias
Em 1947: 5, 10,
20, 30, 50, 100 e 500 Rupias.
Esta foi a última
série de Rupias com a efígie de Afonso de Albuquerque. Com a
Reforma Monetária de 1958, que entrou em vigor a partir de 1 de
Janeiro de 1959 e substituiu a unidade Rupia por Escudo sendo a
conversão feita na relação de 6$ (seis Escudos) por Rupia, o
Banco Nacional Ultramarino lançou em circulação notas com
a efígie de Afonso de Albuquerque, impressas em Londres, do
valor de 30, 60, 100, 300, 600 e 1.000 ESCUDOS,
que seria também a última emissão devido a intervenção militar
indiana em 18 de Dezembro de 1961 e a consequente ocupação e
anexação do Ex-Estado da Índia Portuguesa pela República da
Índia. Nesse dia, grande parte de notas que se encontravam nas
casas fortes do Banco Nacional Ultramarino foram queimadas e as
restantes foram recolhidas pelo State Bank of India.
O Banco Nacional
Ultramarino, que teve uma acção preponderante tanto no aspecto
económico como financeiro naquele Estado, cessou a sua
actividade a 18 de Dezembro de 1961 mas, definitivamente, só
encerrou os seus escritórios a 13 de Janeiro de 1962, uma vez
que por imposição do State Bank, que ficou com o activo e
passivo do B.N.U. teve de fechar as contas e entregá-las.
Ocorre-me contar dois
incidentes verificados na destruição das notas do Banco no dia
18-12-1961. Na Filial de Panjim, logo pela manhã desse dia, com
a cidade fortemente patrulhada pelo exército português e face às
noticias do avanço das tropas invasoras, foi iniciada na Filial
a destruição por incineração das notas de valores elevados. Por
volta das 11.30 devido as ordens para o encerramento das
actividades, face à aproximação das ditas tropas, o edifício foi
evacuado e os altos dirigentes da Filial meteram na bagageira do
carro do Banco os maços de notas que couberam e rumaram a Dona
Paula para deitá-los ao mar, mas o intento ficou gorado porque
os primeiros maços lançados começaram a flutuar por serem
compactos. Como, entretanto, começou o duelo entre o aviso
Afonso de Albuquerque e a marinha indiana, os ditos dirigentes
voltaram atrás, dirigiram-se a aldeia de Taleigão, onde, num
descampado, amontoaram os restantes maços e lançaram fogo.
Quando toda aquela
fortuna estava a ser consumida por labaredas altas retiraram-se,
mas o zé povinho das redondezas que devia estar à espreita
aproximou-se logo, apagou as chamas e tentou salvar as notas
chamuscadas e as não atingidas pelo fogo.
O outro ocorreu em
Margão. Segundo consta, o gerente da Agência, por não ter espaço
suficiente para queimar as notas deitou-as numa banheira,
regou-as com gasolina, deitou fogo e quando tudo estava a arder
refugiou-se no quartel da polícia, para se proteger dos
invasores. Sucede que, logo após a sua partida, um empregado do
banco apagou o fogo e recolheu as que não estavam queimadas.
Isto talvez passasse despercebido mas este empregado foi traído
pela sua ambição desmedida. Pois, como tinha a chave da casa
forte, quis esvaziá-la das moedas e com a ajuda de um colega
andou a transportar em sacos para a casa o que chamou a atenção
dos transeuntes que o denunciaram à tropa invasora. Foi
inquirido e teve de devolver.
Francisco de Sá
Fontes:
Dinheiro Luso-Indiano - J. Ferraro Vaz, Comentários - Afonso de
Albuquerque, Ásia - João de Barros, Memória sobre as Moedas
Cunhadas em Goa - Filipe Nery Xavier, Descrição Geral e
Histórica de Moedas……- A.C.Teixeira Aragão, Lendas da Índia -
Gaspar Correia.
POESIA DA NOSSA TERRA
AMCHEA
GANVCHI KOVITA
N.T.:
Bekaryanc (título) é dativo plural de Bekari,
termo que se encontra na última linha. Bekari, no
entanto, é uma deturpação de Bigari que deu
origem ao termo português Begarim = Operário,
Jornaleiro
BEKARYANC
Adeodato
Barreto
Ganttá dongrá patlean / Súrya uttún yetá,
Aplyá bangrá-kensán / Dogdogtá.
Sabar bangrá-zori / Tajim kirnam distái:
Ekuch durboryanchi / Guirestái.
Zaityá fudlyá tempá / Amché agé-ponngé
Tacá «Surya-Devá» / Munntalé;
Doryá-laguim vossún / Fantyá-pará vellar
Kori tokli moddun / Nomoscar:
«Zoxim pilám daktim / Combiê-pakám-khalá
Zoxém avoi laguim / Daktém balloc nidtá,
Toxém amim, ballocám, / Tujê cuxic tencun
Guetão adar amcám / ani gunn».
(Coro) Goenché tsakór, uttái! / Sorgar uzvadd zaló!
Suryá uttun ailó! / Báir sorái!
Tumcheô cuddolyô gueún / Bollán dornir honddyai
Tanchê torçadi korún / Handar maryái
Amchyá bekaryanchá / razvotech’ vell ailó:
Bekari, ubé ráum-yá / Sounsar amchó!
Aljustrel, 3 de Maio de 1935
(in “ O Livro da Vida”)
“Chonvram”
de B. B. Borkar (Bakibab Borkar)
1. NACHTA MÔR
Nachta môr altoddi
Paus poddta poltoddi
Ddoranv
ddoranv gait bebe
Tolliêr
khelltti talgoddi
Lokam
sukam lakh di
Mhaka ekuch pank di
Pustokant mhojea mora
Nanv tijem ravum di
2. KAVLLEA, KAVLLEA
Kavllea, kavllea, khoim rê gel’lo?
Gel’lo pollounk xar.
Iedê begim ailo koso?
Modinch zalo far.
3. AGÔ, AGÔ BILU
Agô, agô bilu, tuka
Sang kitem zai?
Toveavelem nustem ani
Dudaveli sai.
AOS OPERÁRIOS
Adeodato Barreto
De trás dos altos Gates / O Sol se vem erguendo,
Nos seus cabelos de ouro / Vem ardendo.
Seus raios se assemelham / A muitas fontes d’ouro:
Dos pobres um e único / Real tesouro.
Em tempos que lá vão / Os que nos precederam
«Deus-Sol» é este o nome / Que lhe deram;
À beira-mar postados / Em hora pré-matina
Cabisbaixos rezavam / Em surdina:
«Como os pintos se acolhem / Nas asas da galinha,
Como um menino dorme / No colo da mãezinha,
Assim nós, teus meninos, / Da tua magnitude
Derivamos ajuda / E virtude».
(Coro) Servos de Goa, erguei-vos! / No ceu ‘ma luz brilhou!
O sol p’ra vós raiou! / Movei-vos!
Vossos sachos pegai, / Com força o chão cavai,
Em armas os tornai / E ao ombro os alçai.
P’ra os nossos operários / Chegou a hora de fundo:
Ergamo-nos, operários, / É nosso o mundo!
(Original concani in “O Livro da Vida”)
“Flores” para Crianças,
de B. B. Borkar (Bakibab Borkar)
1. DANÇA O PAVÃO
Dança o pavão nesta margem,
Cai a chuva noutra margem.
Drrão-drrão croaxam as rãs
À beira-lago folgazãs.
Dá felicidade ao povo,
Que a mim uma pena basta.
O teu nome fique sempre
Ó pavão na minha pasta.
2. GRALHA, Ó GRALHA
Gralha, ó gralha, p’ra onde te piraste?
Fui visitar a cidade.
E como tão cedo voltaste?
Ouvi tiros – que calamidade!
3. GATO, Ó GATO
Gato, ó gato, diz-me:
Qual é o teu deleite?
O peixe da frigideira
E a nata do leite.
Traduções livres, rimadas, de Jorge de Abreu Noronha
DE GOA
GÕYCHEÔ KHOBRÔ...
MAESTRO ANTÓNIO DE FIGUEIREDO (20.08.1903 – 05.11.1981)
Homenageado
em Pangim no centenário do seu nascimento
Enquanto eu aguardava com ansiedade o encontro (já agendado para
o dia 18 de Agosto) com Gabriel de Figueiredo – ele viajado da
Austrália e eu de Portugal -, tive a agradável surpresa de, no
dia 17, ler no suplemento Mirror do diário Herald
um extenso artigo intitulado Maestro António de Figueiredo
– Symphony’s Substance da autoria de Maria de Lourdes
Bravo da Costa Rodrigues e ilustrado com uma fotografia do
Maestro, cuja leitura, no entanto, me deixou a estranha sensação
de “déja vu”.
No
encontro do dia 18, ocorrido no restaurante Riviera à beira do
rio Mandovi, eu e o Fernando do Rego tivemos a felicidade de
sermos contemplados com a oferta, pelo Gabriel (filho do
Maestro), de um CD comemorativo do centenário do nascimento do
primeiro Maestro goês (e quiça indiano) e intitulado Life
& Times – Vida e Época, o qual contém dois artigos em
inglês e português e 10 trilhas sonoras com gravações pela
Preston Symphony Orchestra da Austrália e por Noel Flores e
outros – tudo porém com arranjos musicais de António de
Figueiredo e de Noel.
Nos
diários panginenses do dia 19 sairam anúncios das centenary
celebrations que abrangiam concertos na Kala Academy
(Campal, Pangim) nas tardes de 19 e 20 e uma celebração
eucarística no Santuário de Dom Bosco, da mesma cidade capital,
na tarde de 22. E o diário The Navhind Times publicou na
sua edição de dia 20 os artigos Remembering Maestro
Figeiredo on birth centenary, de Fernando do Rego e
A Loving Tribute to my dear uncle MAESTRO ANTÓNIO DE
FIGUEIREDO, de Leopoldina Figueiredo.
O
programa do concerto realizado na Kala Academy na tarde
de 19 de Agosto conteve oito números, tendo seu ponto alto sido
constituído por um recital de violino executado por 100
estudantes de música ocidental da referida Academia de Artes. O
convidado de honra para este concerto foi o Dr. Sidney Pinto do
Rosário, antigo aluno da Academia de Música criada e dirigida
pelo Maestro Figueiredo.

Foto no “Herald” de 29.08.2003
O
concerto do dia seguinte, que teve como convidado de honra o
Presidente da Kala Academy, Senhor Pratapsingh Raoji
Rane, começou com a actuação de um grupo coral dirigido por Jean
Kalgutkar. Prosseguiu com a de um quarteto composto por membros
da família Figueiredo, a Sinfonia Nº 1 de Bach e a Suite de S.
Paulo de Gustav Holst pela Goa State String Orchestra sob
a regência de Nigel Dixon e terminou com a valsa Leticia (de
Sebastião Figueiredo), 3 Minialetas (do Maestro António de
Figueiredo) e a Rapsódia da Damão e o Mandó Nº 4 (com arranjos
musicais do Maestro) – tudo isto apresentado com primor por
membros da referida Goa State String Orchestra e por um
coro, sob a batuta de Gabriel de Figueiredo.
No
início do concerto do dia 20 o Senhor Pratapsingh Rane, ladeado
da viúva do Maestro, Srª D. Antonieta Melo e Costa e da
directora do Departamento de Música Ocidental, Margarida
Miranda, procedeu ao lançamento formal do CD comemorativo a que
atrás me referi.
À
entrada do auditório interno da Kala Academy onde se realizaram
os dois concertos foi distribuído um opúsculo que, além dos
programas atrás referidos, contém curtas mensagens de
Pratapsingh Rane, Margarida Miranda, Emiliano de Cruz e Pe.
Eufemiano de Miranda, os artigos A Minha Homenagem (em
português) de Fernando do Rego e Maestro António de
Figueiredo – A Tribute (em inglês) de António (Oboe) Noronha
– exímio tocador de oboé hoje radicado em Londres onde celebrou
recentemente o seu 80ª aniversário natalício – e uma biografia
do Maestro, em oito páginas.
Nos
dias 29 e 30 de Agosto o Diário The Navhind Times
publicou um artigo em duas partes intitulado Maestro
Figueiredo: from an acorn to an oak (Maestro Figueiredo: de
bolota a carvalho), da autoria de Maryann Lobo d’Mello.
Não
posso dar por concluído este breve relato sem mencionar que:
·
Em
Maio de 1961 o Governo de Portugal agraciou o Maestro António de
Figueiredo com o grau de Cavaleiro da Ordem de Sant’Iago da
Espada;
· Tendo
o Maestro fundado a Academia de Música do Estado da Índia, a
Orquestra Sinfónica de Goa e a Sociedade Coral de 122 vozes,
apenas a primeira destas três organizações sobreviveu até à
presente data, constituindo agora o Departamento de Música
Ocidental da Kala Academy;
·
Em
Fevereiro de 1977, com a saúde já combalida, o Maestro
transmitiu a Direcção da Academia ao Maestro Pe. Lourdino
Barreto;
·
Em
20 de Agosto de 1989, dia do 86º aniversário do seu nascimento,
o então Ministro Chefe do Governo de Goa descerrou o seu retrato
numa das paredes da Kala Academy e essa data passou a ser
desde então comemorada por esta Academia como o Dia do
Fundador.
Jorge de Abreu Noronha
PÁGINA JOVEM
TORNNATTEANCHEM PAN

DIA DE GOA, DAMÃO E DIU 2003 COM MUITA JUVENTUDE E
PREOCUPAÇÃO EM DEVOLVER PARA GOA
O
Dia Mundial de Goa foi comemorado
pelo terceiro ano consecutivo em Portugal, com uma variedade
de eventos que se realizaram em Lisboa ao longo dos dias 18,
19 e 20 de Setembro. Em Portugal o Dia Mundial de Goa é
comemorado desde 2001, por iniciativa da página Internet
portuguesa sobre Goa, Supergoa.com e desde então por uma
Comissão Organizadora reunindo representantes das cinco
associações indo-portuguesas sediadas em Portugal.
A importância de realizar um evento comemorativo em Portugal
compreende-se tendo em conta que vive neste país uma das
maiores comunidades de goeses, damanenses e diuenses na
diáspora, e que Portugal está há mais de cinco séculos
intimamente ligado a Goa, Damão e Diu.
Anualmente, no dia 20 de Agosto, marca-se a data em que
no ano de 1992 o Parlamento Indiano colocou o Concani, a
língua oficial de Goa, no 8º anexo da Constituição da Índia.
Este pretexto serve desde 1999 para uma maior união e
interligação entre as comunidades goesas espalhadas pelos
quatro cantos do mundo. Este ano decidiu-se adiar as
comemorações em Portugal por um mês, agendando-as para
Setembro.
Perseguindo o objectivo de reforços dos laços que unem a
comunidade, o coordenador das comemorações, o jovem de
origem goesa Constantino Hermanns Xavier, tomou a iniciativa
de juntar numa Comissão Organizadora os representantes de
todas as associações de Goa, Damão e Diu sediadas em
Portugal, nomeadamente a Associação Cultural de Amigos
de Goa, Damão e Diu, a Associação Fraternidade Damão-Diu e
Simpatizantes, a Associação Recreativa e Cultural
Indo-Portuguesa, a Casa de Goa e o Suryá, Movimento Cultural
e Ecológico de Goa.
Depois do sucesso do ano passado, em que quase um milhar de
pessoas participou nas comemorações, este ano o programa
reservou para os dias 18 e 19 um ciclo de cinema sobre Goa e
para o dia 20, Sábado, o Festival Goa, Damão e Diu, e um
Jantar de Encerramento.
Mais do que uma simples confraternização social, o objectivo
destas comemorações foi de deixar a comunidade “redescobrir
Goa” e assim “devolver para Goa”, reatando os laços com as
origens. Assim, no dia 18, no auditório do Museu Nacional de
Etnologia, em Lisboa, juntaram-se mais de 80 pessoas para
visionar o documentário “Bhaile” (Estrangeiros) da
autoria de Ajay Noronha, um goês de Bombaim que decidiu
denunciar um problema tabu em Goa, nomeadamente a pedofilia
nas zonas costeiras. Munido de uma câmara e de poucos
recursos financeiros, o realizador documenta como Goa se tem
tornado num novo paraíso para os pedófilos vindos da Europa,
a dificuldade em encarar a questão e o sofrimento das
vítimas.
O debate posterior com a assistência, intitulado
“Redescobrir Goa” abordou a questão de como a diáspora
goesa pode contribuir para a Goa de hoje. As diversas
intervenções suscitaram uma conversa muito interessante em
que se começaram por enumerar os diversos problemas que
afectam a Goa de hoje e para cuja resolução a comunidade da
diáspora poderá dar um importante contributo, nomeadamente
nos casos da hepatite, da febre dengue e do ressurgimento da
malária, mas também nos casos da escassez da água, dos
acidentes de trânsito, da poluição ambiental e dos lixos
urbanos.
Todos concordaram que a comunidade não se pode limitar a
conviver e a socializar e afastar-se assim das suas origens
e das suas responsabilidades. Discutiram-se diversas
formas de intervenção. Para uns falta uma organização formal
das associações da diáspora como meio de pressão em Goa.
Outros apontaram os casos de sucesso de diversas
organizações não-governamentais, em Goa e na diáspora, que
têm feito um excelente trabalho para o desenvolvimento
sustentável de Goa. Um interveniente apelou a um maior
empenho dos goeses nestas causas: “Se for só um goês a
escrever um e-mail a protestar contra o abate das árvores de
Campal ninguém nos liga, mas se formos 100 ou 1000
certamente que não nos poderão ignorar”.
Já no dia 19 foi a vez de visionar o clássico “Amchem
Nochib” um filme em Concani de 1962, recuperado numa versão
em CD-rom. A apresentação esteve a cargo do Doutor
Filipe Monteiro que falou da época áurea do cinema goês dos
anos 60 em que se transpôs com sucesso a estrutura do
“tiatr” para as salas de cinema. Mais de 100 pessoas
deliciaram-se com este belo filme que suscitou gargalhadas,
comentários e suspiros românticos entre a audiência. Se para
muitos foi uma oportunidade de reviver a Goa do passado,
para outros mais jovens foi uma experiência única que
permitiu conhecer em imagem a Goa dos pais e avós.
O ponto alto das comemorações estava reservado para o
Sábado, dia 20, nas magníficas instalações da Casa de Goa,
em Lisboa. Uma empenhada equipa de mais de uma dezena de
jovens goeses e damanenses preparou um inédito Festival
de Goa, Damão e Diu durante a tarde, por onde passaram
cerca de três centenas de pessoas.
Decorreram em simultâneo diversos eventos,
designadamente uma contínua sessão de slides de Goa, Damão e
Diu comentada, uma exposição de fotografia, desenho, prosa e
poesia de jovens indo-portugueses intitulada “Um Olhar Jovem
sobre Goa, Damão e Diu”, um típico lanche com chamuças,
bojés, bebinca, chá e feni, um torneio de carrom, um jogo
interactivo em que se testavam os conhecimentos sobre Goa e
a exibição de um documentário sobre Gilberto Freyre
apresentado pela jornalista Helena Balsa e posterior debate
sobre o papel de Goa no espaço lusófono.

Ao fim da tarde, na sala de conferências, actuou o grupo de
danças e cantares goeses Suryá, animando a vasta audiência e
ensinando depois alguns passos de dança goesa aos mais
corajosos.

Para a noite estava reservado o Jantar de Encerramento
das comemorações, no restaurante Xanti da Casa de Goa,
com a presença de dirigentes e associados das várias
associações indo-portuguesas, bem como os convidados de
honra, entre os quais se incluíam o Dr. Carlos Encarnação,
Presidente da Câmara de Coimbra (em processo de geminação
com Damão), o Embaixador João de Deus Ramos, administrador
da Fundação Oriente, e representantes das municipalidades de
Loures (geminada com Diu) e Lisboa (Embaixador Melo
Gouveia).
As comemorações do Dia Mundial de Goa realizaram-se assim
mais uma vez com sucesso em Portugal, tendo sido inúmeras as
mensagens de felicitação recebidas de todo o mundo, bem como
uma vasta cobertura pela comunicação social (RTP
Internacional, RDP Internacional, Expresso, em Portugal;
Gomantak Times, Goanet News, Goa Today, em Goa.). Em
especial, o mérito vai para os mais jovens que têm assumido
um importante papel nesta iniciativa ao aceitarem o papel de
divulgar e celebrar a rica identidade de Goa, Damão e Diu em
Portugal.
Para o ano de 2004 a Comissão Organizadora voltará a apostar
nos três objectivos principais
desta iniciativa: reforçar os laços que unem a comunidade
goesa, damanense e diuense, divulgar a rica identidade de
Goa, Damão e Diu em Portugal e passar o testemunho aos mais
jovens. O Secretariado do Dia de Goa, Damão e Diu, pode ser
contactado através do endereço electrónico
info@supergoa.com ou por uma visita ao “website”
www.supergoa.com
WORLD GOA DAY EM PORTUGAL: UM BALANÇO
Para
além de um resumo geral sobre as comemorações, gostaria de
salientar três aspectos em particular, referentes aos
objectivos deste World Goa Day em Portugal, olhando
também para o que conseguimos nestes três primeiros anos.
Este evento é comemorado anualmente por milhares de goeses
pelo mundo fora, e já atingiu tal amplitude que mesmo em Goa
já se comemora (por exemplo no Festival Bonderam, em Divar).
Mas, no que concerne em específico a nossa comunidade em
Portugal, muito embora sejam imensos os elogios vindos de
outras comunidades, urge fazer um balanço e perceber de
que modo estas comemorações fazem sentido e são úteis para a
comunidade.
Primeiro, soubemos mais uma vez celebrar a nossa
identidade em comunidade. Isto é, juntando associados de
todas as cinco associações indo-portuguesas, bem como amigos
e conhecidos. À semelhança de 2001 e 2002, isto foi muito
bem recebido pelas pessoas que ao longo dos dias 18, 19 e 20
se juntaram a esta iniciativa. Pairava no ar o verdadeiro
espírito da comunidade, coesa mas heterogénea, unida mas
consciente da sua rica diversidade.
Segundo, fomos capazes de divulgar a rica cultura e
património de Goa, de Damão e de Diu aos portugueses locais,
tão interessados em (re)descobrirem uma identidade
intimamente marcada pela cultura portuguesa. Foi notório, em
2002 e neste ano, que participaram muitas pessoas que pouco
conheciam de Goa, Damão e Diu, mas com muito interesse em
saber mais. Prova disso é também a cobertura da
comunicação social portuguesa: Expresso, Agência
Notícias, Diário Digital, RTP Internacional, RDP
Internacional noticiaram e cobriram este Dia de Goa, Damão e
Diu, transmitindo a nossa mensagem a um público mais vasto.
Também a presença dos convidados de honra no Jantar de
Encerramento serviu muito bem esse nosso objectivo de
divulgar a nossa identidade em Portugal.
Finalmente, atingimos um duplo objectivo, tão importante
para a identidade goesa. Conseguimos cativar mais
juventude ainda para manter vivo o património goês,
damanense e diuense em Portugal. Isso foi notório na
organização do Festival Goa, Damão e Diu no dia 20 de
Setembro, e muito bem recebido pelos participantes que
respiraram juventude (para bem e para mal!) ao longo de toda
a tarde.
E, por via do visionamento do filme “Bhaile” e posterior
debate, soubemos lançar as pistas para devolver para Goa
e assumir a nossa íntima ligação com a realidade de hoje em
Goa, Damão e Diu e a nossa responsabilidade para com
esses territórios. A nossa mensagem chegou. O GoaNews
Clippings lido por milhares de goeses em todo o mundo
noticiou o nosso evento, bem como o diário Gomantak Times e
o maior mensal, Goa Today, entre outros.
Tudo isto só foi possível graças à entrega e dedicação de
várias dezenas de pessoas que se empenharam na realização
deste Dia de Goa, Damão e Diu 2003. Um grande obrigado a
todos os que não desistem de manter viva a identidade e o
rico património cultural goês em Portugal.
Em especial, os muitos jovens que coordenaram diversos
eventos e ajudaram na sua execução. São eles a verdadeira
alma e o futuro da nossa comunidade. Informalmente, criámos
uma plataforma onde todos os jovens de origem
indo-portuguesa podem comunicar e trocar ideias e novidades
mensalmente, independentemente da associação a que pertencem
e às diferenças que nos separam. Assim, esta plataforma
jovem não é mais do que uma reunião periódica em que se os
jovens se vão conhecendo uns aos outros e partilhando
experiências vividas. Em vez de estes (por enquanto) poucos
jovens trabalharem separadamente, será muito mais
enriquecedor partilhar ideias, dúvidas e desejos num grupo
mais alargado e aberto a todos!
É este um primeiro resultado concreto do Dia de Goa, Damão e
Diu, e está ao serviço de toda a comunidade e de todos os
interessados em promover e divulgar a identidade goesa.
Constantino Hermanns Xavier
(Coordenador do Dia de Goa, Damão e Diu – World Goa Day em
Portugal)
ENTRE NÓS
AMCHÊ MODEM
Visita à Freguesia de Carnide – núcleo histórico e Feira da Luz
Mais
uma visita guiada a outra zona de Lisboa – Carnide - organizada
na Casa de Goa, desta vez, por Rita Henriques, Helena Quadros,
Maria da Luz Fonseca e Maria Virgínia Brás Gomes, que
incansavelmente nos levam ao encontro do que de mais
interessante a cidade tem para ver.
Em Carnide, nas
vésperas do dia da importante procissão de Nossa Senhora da
Saúde e em plena altura de realização da conhecida Feira da Luz,
pudemos, acompanhados por Teresa Martins, do Pelouro da Cultura,
da Junta de Freguesia, ver a parte mais antiga da Freguesia, que
começa numa das portas de Lisboa, situada, quando foi
construída, a uma distância considerável da cidade propriamente
dita e limitando um vasto espaço rural, de campos de cultura e
quintas senhoriais, com pequenos e dispersos aglomerados de
casas ou palácios por onde os poucos habitantes se dispersavam –
eram cerca de 4000, em 1960, sendo hoje, mais de 20000.
O território da
freguesia começou a organizar-se, a partir do século I, como
zona agrícola, para o abastecimento da grande urbe.
Posteriormente vieram os mouros, com a sua horticultura,
enriquecer as técnicas de cultivo da região saloia. Depois
surgiram as quintas, com as suas casas apalaçadas. Pudemos ver
um desses palácios, o dos Condes de Carnide, ainda habitado pela
Família titular.
Alguém lembrou “o
ramalhete rubro das papoulas”, colhidas numa qualquer quinta,
num desses passeios ao campo cuja beleza a poesia de Cesário
Verde eterniza!
Na moderna Carnide,
já sem quintas, a literatura e a arte florescem nos teatros de
bairro. São quatro e vimos dois em actividade, preparando os
espectáculos que neles estão em cena. Um desses teatros situa-se
no espaço do Seminário dos Franciscanos, o qual ocupa as
instalações do que foi um palácio de “brasileiro” abastado, que
nos legou um lindo conjunto de edifícios, “com fachada
neoclássica e interiores decorados com motivos naturalistas...
num exotismo romântico típico da época”. Hoje estão recuperados
e em grande actividade socio-cultural, ao serviço da população,
com apoio dos Franciscanos, que lá dispõem de um lar, um
hospital e uma escola de enfermagem.
Visitamos o lindo e bem cuidado jardim do palácio, as salas
de aulas e de reuniões, relativas à referida actividade
social, a igreja, ampla e decorada com vistosos vitrais,
onde decorre parte do serviço litúrgico da paróquia.
Visitamos, depois, o Convento das Carmelitas Descalças,
fundado, em 1562, pela Princesa Micaela, filha de um
imperador alemão. Tem valiosas ornamentações, nomeadamente
os revestimentos de azulejos e em talha dourada, esta só
igualada pela da Madre de Deus, estando em curso os
trabalhos de restauro. Começamos logo por ver um parlatório
– janela onde as freiras podiam atender pessoas de fora do
convento, mas que eram fechadas por duas grades de ferro,
com bicos que as impediam sequer de se lhes encostar, e
ainda com uma cortina para as impedir de ver directamente a
pessoa em causa. Isoladas do mundo, estas freiras procuravam
esquecer a vida, envoltas na mística adoração de Jesus, como
Santa Teresa de Ávila, fundadora da Ordem. Hoje o Convento
está entregue à Confraria de S. Vicente de Paulo, servido
por freiras que se dedicam a actividades de apoio à
população carenciada que frequenta as instalações,
nomeadamente um lar de idosas. Já se respira, no Convento,
um espírito de abertura ao exterior, ao conforto e à
modernidade que também a nós nos reconforta.
É interessante
comparar as duas instituições religiosas visitadas, o
Seminário da Luz, entregue aos Franciscanos, e o Convento
das Carmelitas. O primeiro é uma construção mais moderna,
mas também aparenta uma forma de culto muito mais próxima da
natureza, enquanto a outra, construída no século XVI, ainda
hoje mantém uma austeridade evocativa da Ordem que lhe deu
origem. É a diferença entre um misticismo que se alheia do
mundo, na contemplação do divino e o outro, o franciscano,
amante das plantas, dos animais, portanto, verde, florido,
vivo!
Ora,
independentemente do modo como nós podemos, hoje, encarar
essas diferentes formas de cada um servir a Deus, o facto é
que, como já Cristo dizia, “a fé é que nos salva”. É o que
pode concluir-se do efeito curativo atribuído à água de uma
fonte existente no interior do Convento das Carmelitas, que
corre por quatro bicas e, consoante a bica de que era
apanhada, assim ela era boa para tratar uma certa maleita,
diferente das outras.
Paralelamente a
estas duas atitudes religiosas, e não longe do Convento, a
Rua da Mestra assinala a existência de uma escola leiga,
criada pela Associação Auxiliadoras da Instrução, em 1904.
Seguiu-se a
visita à Igreja de Nª. Senhora da Luz, antecedida pelo
relato da lenda que deu origem à Igreja e ao importante
culto que nela surgiu. Fala esta em Pero Martins, soldado do
Rei D. Afonso V, que, preso em África, terá visto a Virgem
Maria, envolta em grande luz, e dela recebido uma mensagem.
De regresso à pátria, cumprindo a ordem dada pela “visão”,
foi a Carnide, à Fonte do Machado, procurar e encontrar a
imagem de Nª. Senhora da Luz e edificar-lhe uma ermida que
viria a ser local de “muitas maravilhas e milagres que nele
serão feitos” ... a “muitas pessoas devotas”. A ermida
atraiu logo, ao culto, o Rei D. Afonso V, a nobreza e o povo
em geral e foi criada a Confraria da Senhora da Luz
A Igreja de Nª.
Senhora da Luz foi mandada construir, no local da ermida,
pela Infanta D. Maria, filha do Rei D. Manuel, em 1575, ao
arquitecto Jerónimo de Ruão, o mesmo do altar-mor no
mosteiro dos Jerónimos.
O terramoto
destruiu grande parte da igreja, que nunca foi reconstituída
como era.
A igreja actual,
da anterior tem apenas o altar-mor. Mas este é uma linda
peça da Renascença, com as suas pinturas e talhas douradas
numa composição verdadeiramente encantadora!
Para terminar,
fomos ainda ver uns silos muito antigos postos a descoberto
em obras recentes. Escavados na rocha, em forma da talha,
com 2m de fundo, terão inicialmente servido para guardar
cereais. Posteriormente, no século XV, serviram para recolha
de lixo, e foi deste que os arqueólogos retiraram objectos
valiosos, nomeadamente algumas moedas, que se podem ver no
museu da Junta de Freguesia.
Por último, mas
de importância, pelo menos, igual, decorreu o almoço, num
dos famosos restaurantes de Carnide, e, a seu pretexto, o
convívio, o conhecimento de novos aderentes, em particular,
os jovens goeses descendentes que sempre dão uma
interessante jovialidade ao grupo, e uma renovada esperança
aos mais velhos.
Mais uma vez, as
recordações e evocações de Goa, ausente e presente sempre,
foram o menu mais saboroso!
Hernâni Cidade
Mourão
***
Oferta de livros da Goa Konkani Akademi (GKA)
Pelo
Presidente da Goa Konkani Akademi, Pundalik N. Naik, foi
feita à Casa de Goa, uma oferta de livros para o Centro de
Documentação. Agradecemos a gentileza, quer da GKA quer do
nosso sócio Jorge de Abreu
Noronha que, aproveitando a sua estada em Goa, se deslocou à
GKA para
um encontro em que se falou da Casa de Goa e do seu projecto
cultural.
Para além destes
livros, foi adquirido outro material informativo, incluindo uma
cassette vídeo com um docudrama sobre Shenoi Goembab.
Aproveitamos esta
oportunidade para transmitir a todos os sócios o pedido da GKA
de uma consulta sistemática ao seu site
www.goakonkaniacademi.org para informações actualizadas
sobre as suas iniciativas mais recentes.
***
Exposição fotográfica Cores da Índia – Um olhar sobre a obra de
Charles Correa
Com a presença da Senhora Embaixadora da Índia, do Arq. João
Regal, em representação da Ordem dos Arquitectos, do Presidente
da Direcção da Casa de Goa, da autora da exposição e de muitos
sócios das instituições promotoras, foi inaugurada, no dia 2 de
Outubro, no Museu da Casa de Goa, a magnífica exposição
fotográfica da Arq. Fabienne Louyot, que já foi visitada por
mais de 200 pessoas.
No
dia da inauguração, pudemos, também, assistir, por cortesia da
Embaixada da Índia, a um espectáculo inesquecível de música
étnica do Rajasthan, interpretado por um conjunto de 10 jovens
intérpretes – cantores e instrumentistas, com idades
compreendidas entre os 9 e os 26 anos.
Das opiniões
expressas no livro de honra da exposição, transcrevemos algumas
que atestam a qualidade das fotografias expostas.
...Testemunho
absolutamente fantástico de uma cultura misteriosa e
magnífica...
...Obrigado pela
saudade que tudo isto nos manifesta...
...Bela viagem
colorida e partilhada...
...Cores e imagens
inconfundíveis...
***
International Goan Women’s Appreciation Day
A
Goa Sudharop solicitou a divulgação da realização, em
Oakland, no dia 16 de Novembro, do International Goan
Women’s Appreciation Day, com o objectivo de promover um
encontro entre goeses, para homenagear, encorajar, motivar e
agradecer às mulheres goesas que vêm dando contributo às
suas comunidades de origem e de acolhimento.
Para que possam
receber esta homenagem, elas deverão ser nomeadas, pelas
suas famílias, amigos, colegas de profissão ou outras
pessoas, em 3 categorias:
-
pessoal
(mães, irmãs, primas, etc)
-
realização
académica ou profissional ou artística
-
voluntariado
(dedicação à comunidade)
O evento, que
terá uma réplica em Goa, e cujos proveitos financeiros serão
entregues a associações goesas de assistência social, já
obteve alguns importantes patrocínios. Para além de um
almoço de confraternização e de intervenções de diversos
oradores, um painel composto por mulheres goesas abordará
questões no âmbito do trabalho e da saúde.
A Goa Sudharop
solicita indicação de mulheres goesas no mundo português que
possam ser nomeadas em qualquer uma das categorias e informa
que o seu coordenador em Goa pretende publicar, on-line, uma
breve descrição das realizações de mulheres goesas, em
vários domínios de actividade, não só em Goa, como nas
comunidades da diáspora.
Fica dada a
informação! Quem quiser corresponder a qualquer um destes
dois pedidos, poderá obter mais informações contactando
directamente a entidade organizadora, através do endereço
electrónico:
filomenagiese@yahoo.com
***
Viagens a Goa – voo directo via Frankfurt - promovidas pela
LusaNova
A
pedido do seu organizador, Sr. José Gracias, divulgamos a
informação sobre a realização de viagens a Goa, a partir de
Lisboa e com voo directo via Frankfurt, de Novembro de 2003
a Abril 2004, com partidas todas as Quintas feiras.
Os voos são da
responsabilidade da Lufhtansa/Condor, em Boeing 757. Para
mais informações e reservas, poderá contactar a agência
promotora (tel: 21 8824120, fax: 21 8884301,
lusanovaMM@lusanova.pt ou o Sr. José Gracias (tlm:
964808992)
***
Hino da Casa de Goa
Após
discussão e aprovação na Assembleia Geral Extraordinária
convocada para alteração dos Estatutos e do Regulamento
Interno, o Artº 20º do Capítulo VI do novo Regulamento
Interno estabelece o seguinte:
-
O hino da
Casa de Goa será escolhido, mediante concurso, por um
júri nomeado pela Assembleia Geral, sob proposta da
Direcção.
-
A letra do
hino será em concani e terá uma versão em português.
Na sequência
desta deliberação, a Direcção está a desencadear os
contactos necessários à constituição do júri para a música e
a letra, a ser nomeado na próxima Assembleia Geral do dia 20
de Novembro.
No entanto,
parece-nos útil dar já conhecimento desta intenção, para que
eventuais interessados possam dar início ao seu processo
criativo. No próximo Boletim vos daremos informações mais
pormenorizadas, incluindo possíveis critérios a serem
estabelecidos pelo júri, que serão, também, divulgados
através dos sites da Internet sobre Goa e os Goeses.
***
Actuação
dos jovens do Grupo Ekvât da Casa de Goa
A
convite da Casa de Macau, os jovens do Grupo Ekvât da Casa
de Goa participaram, na noite de 17 de Outubro, numa festa
da juventude com representantes de diversas comunidades,
interpretando o fugddi Vauraddi Xetkamti e o dekhnni
Damulea Mattvant.
Foi uma excelente
oportunidade para conviver, dar a conhecer a Casa de Goa e
divulgar o folclore goês, quer na vertente popular dos
kunnbi, quer na vertente artística das bailadeiras.
***
Casa de Goa na iniciativa Luz do Oriente
A
Casa de Goa vai participar na iniciativa Luz do Oriente,
a decorrer de 31 de Outubro a 2 de Novembro, na Lousã,
organizada pela Arte-Via Cooperativa Artística e Editorial,
CRL, com o patrocínio da Fundação Oriente e a presença de
vários representantes diplomáticos e de autores goeses,
islâmicos e timorenses.
A iniciativa
integra uma exposição no Pavilhão Municipal de Exposições de
artigos e gastronomia, uma exposição colectiva de artes
plásticas e diversas Conferências, entre as quais
Antecedentes e percurso da literatura portuguesa
contemporânea, por Orlando da Costa, A Índia Mítica
em “O Livro da Vida de Adeodato Barreto”, por Everton
Machado e Era uma vez o Estado da Índia, por Paulo
Varela Gomes.
A Casa de Goa vai
estar presente num stand da exposição, em conjunto com a
Associação Cultural de Amigos de Goa, Damão e Diu, também
convidada pela organização, e o seu grupo Ekvât irá realizar
um espectáculo no dia 1 de Novembro, às 21.00 horas.
***
Actualização do ficheiro de sócios
Conforme
vos comunicamos no último Boletim, está em curso a revisão e
actualização do ficheiro de sócios. Na sequência de uma
análise dos ficheiros existentes e na sequência das
deliberações estatutárias, foram enviadas aproximadamente
360 cartas com indicação a cada um dos sócios com quotas em
atraso, do montante da sua dívida e das modalidades de
pagamento. Este contacto foi sendo feito ao longo dos meses
de Agosto e Setembro. Recebemos, até agora, 55 respostas,
das quais 42 para satisfação do débito. Registamos, com
apreço, o facto destes sócios, incluindo os que tinham
alguns anos com quotas em atraso, terem optado por
regularizar a sua situação e esperamos que outros tenham
idêntico procedimento, lembrando, uma vez mais, a
importância do pagamento das quotas para o desenvolvimento
das actividades.
***
Património documental
Agradecemos
aos seguintes sócios a oferta de monografias e periódicos ao
Centro de Documentação.
António Brás
Gomes – Os Luso-descendentes da Índia Portuguesa /
Jorge Forjaz. – Lisboa : Fundação Oriente, 2003. – 3 v.
Constantino
Hermanns Xavier - O caso de Goa: 40 anos depois
(1961-2001), recordando a história : actas da
conferência realizada no dia 18 de Dezembro de 2001, em
Lisboa / org. Núcleo de
Estudos de
Ciência Política e Relações Internacionais [da] Universidade
Nova de Lisboa /
Associação Surya; coord. Constantino Hermanns Xavier, João
Reis Nunes. - Lisboa : Núcleo de Estudos de Ciência Política
e Relações Internacionais, 2003. - 92 p.
Helena Quadros –
O Sangue da Deusa / Kara Dalkey. Lisboa :
Planeta, 2001-2003. – 3 v. – 1ºv.: Goa; 2º v.: Bijapur ; 3º
v.: Bhagavati
Ângelo Facho -
O mistério da vida e da morte de Mata Hari / E.
Gomez Carrillo, [192?]. – Buenos Aires : Edições da América
Latina. – xx, 172 p.
Obras completas /
Soares Rebelo.
– ed. centenária anotada e prefaciada / por Domingos José
Soares Rebelo. – Lourenço Marques : [s.n.], 1973. – Vol. 1:
Contos e novelas, poesia , teatro.
Agradecemos,
ainda, a oferta de:
Contos de fadas
indianos
/ org, Joseph Jacobs. – São Paulo : Landy, 2001. – 247 p.
Diversos números
da Revista Garcia de Orta, publicada pelo
ex-Ministério do Ultramar
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